Principais técnicas da Saboaria Natural

(tempo de leitura: 9 minutos)

pra começo de conversa…

Se você já está familiarizado com termos como saponificação, processo a frio, processo a quente, sabão do zero etc, esse post vai te ajudar a entender melhor as diferenças entre as duas principais técnicas, as mais utilizadas na saboaria natural contemporânea.

Mas se você tá chegando agora e ainda não sabe muito bem o que é esse tal sabão natural, leia esse post aqui para obter uma boa introdução sobre as origens dos sabões, sabonetes, as saboarias tradicionais e porque a saboaria natural é diferente da industrial e, ao mesmo tempo, um resgate da saboaria tradicional/ancestral.


Entendendo a diferença entre cold e hot

Existem várias formas de se fazer sabão, tradicionalmente e modernamente falando. No contexto da atual saboaria natural de produção artesanal, que produz sabões do zero, sem o uso de bases prontas industrializadas e livre de aditivos sintéticos, as duas técnicas mais utilizadas são: o processo a frio (cold process) e o processo a quente (hot process).

A diferença fundamental entre os dois é o cozimento da massa de sabão após o início da reação química da saponificação. Enquanto no processo a frio a finalização da receita se dá no momento do alcance do trace (ponto de viscosidade que indica o início da reação). No quente, após o trace submete-se a massa ao cozimento em baixa temperatura – banho maria, fogão de indução ou panela de cozimento lento (crockpot), em temperatura aproximada de 80°C.

A mistura dos óleos com a solução de soda em água (lixívia) é feita a aproximadamente 40°C. No processo a frio, após atingir o trace, aditivos podem ser inseridos, como os óleos essenciais, então coloca-se no molde até endurecer. Cerca de 12 a 72 horas já é possível cortar as barras e reservá-las para a cura. O sabão feito a frio, por não ser cozido, precisa de um período longo de cura para que a reação termine e neutralize toda a soda utilizada no processo e, principalmente, para promover a perda de um pouco de umidade por evaporação.

Quando se cozinha a massa no processo a quente a reação é acelerada pela temperatura e finaliza em algumas horas, neutralizando toda a soda. Os aditivos são então adicionados, em um ambiente que não é mais tão alcalino quanto no processo a frio, onde são adicionados ainda com a reação acontecendo.


A frio ou a quente? vantagens e desvantagens

O processo de saponificação a frio é um método mais simples e mais rápido de produzir. Normalmente recomendado para quem está começando ou quem gosta de sabonetes bem decorado, com cores e desenhos elegantes e com aparência mais homogênea. Um mundo de possibilidade de efeitos decorativos.

foto com sabonetes produzidos pelo processo a frio e com decoraçoes naturais feitas com argilas coloridas.
sabonetes naturais feitos pelo processo a frio, com destaque para os sabonetes decorados com argilas.

A principal desvantagem é que no momento de inserir os aditivos a reação ainda está ocorrendo, ainda tem presença da soda e de um ambiente extremamente alcalino. Muitos aditivos não suportam essa condição e se perdem nesse meio de caminho até a reação se completar. É o caso de muito óleos essenciais, como os cítricos por exemplo, que após a cura dos sabonetes acabam sumindo completamente.

Outra desvantagem é o tempo de cura. Todo sabonete natural feito por saponificação precisa de um tempo de cura, principalmente para perder água. No método a frio a cura também é necessária para garantir a total neutralização da soda, ou seja, para completar a reação. De modo geral, recomenda-se um tempo de no mínimo 4 semanas para os sabonetes a frio.

Um grande equívoco, é pensar que no processo a frio, a temperatura da massa do sabão se mantém baixa durante toda a reação. Embora a mistura entre óleos e a soda seja feita a +/- 40 graus, a saponificação, que gera calor, continua dentro do molde, atingindo temperaturas superiores a 70 graus, dependendo da receita. O que fica bastante evidente quando há a formaçao da fase gel (como mostra a imagem abaixo). Mais uma vez os aditivos podem sofrer. Para um melhor aproveitamento dos insumos é necessário conhecer os mais resistentes, pois sim, eles existem!

foto apresentando um pilão de pedra com resina de breu branco e uma barra de sabonete no molde de silicone durante o processo de formação da fase gel, poucas horas após o envase da massa, feito por processo a frio de sapoficação.
barra de sabonete no molde de silicone durante o processo de formação da fase gel, poucas horas após o envase da massa.

Já no processo a quente, quando fornecemos calor à massa de sabonete após o trace, acelerando a reação e inserindo aditivos apenas depois do cozimento total e de certo resfriamento da massa, preservamos assim muito mais as propriedades desses aditivos. Temos assim a possibilidade de fazer sabonetes muito mais potentes em relação ao aproveitamento das matérias primas, especialmente das plantas medicinais e aromáticas, seus extratos naturais e óleos essenciais.

foto apresentando quatro diferentes sabonetes feitos pelo processo a quente
diferentes exemplares de sabonates naturais feitos pelo processo a quente.

Além disso, podemos usar e abusar de alguns aditivos que não devem ser colocados durante a reação, como as tinturas hidroalcoólicas de plantas e os óleos essenciais mais sensíveis à temperatura ou que reagem com a soda.

É um processo mais longo para produzir e mais difícil de finalizar, pois, na medida em que a massa é submetida ao esfriamento, após o cozimento, ela vai também endurecendo e se torna menos maleável ao envase no molde. Isso resulta em sabonetes de aparência mais rústica, que não permite grandes efeitos decorativos (embora possam ser lindíssimos a sua maneira). Por outro lado, certamente é um método que produz sabonetes mais medicinas e terapêuticos.

foto apresentando duas barras de sabonete da mesma receita feita pelo processo a frio (esquerda) e a quente (direita), para ilustrar as diferenças na aparencia das duas técnicas de saboaria natural.
duas barras de sabonete da mesma receita feita pelo processo a frio (esquerda) e a quente (direita).

Outro destaque, é que o tempo de cura pode ser bem menor, já que não é necessário para neutralizar a soda e porque existe certa perda de água que acontece durante o próprio cozimento da massa. O tempo de cura pode variar de 7 a 20 dias de acordo com a receita e é fundamental para perder um pouco mais de água, tornando o sabonete mais sequinho, mais duro e resistente ao derretimento pela água.

O principal equívoco sobre o hot process é acreditar que a temperatura durante o cozimento destrói as propriedades, “desnatura”, deteriora, degrada ou estraga os óleos e manteigas colocados na base do sabão. O que não é verdade, visto que praticamente todos os óleos, gorduras, manteigas suportam tranquilamente a temperatura de até 80 graus em que a massa é submetida de forma controlada.


E as bases glicerinadas?


Sabão de glicerina não é um sabão propriamente dito, daqueles que vem da saponificação. Serve para a limpeza e higiene sim, mas já vimos que nem tudo o que limpa é sabão saponificado, não é mesmo?

Pois bem, a glicerina (ou glicerol) é um subproduto da saponificação assim como a parte sabão da reação. Porém é um produto nobre. Possui diversos usos farmacêuticos e alimentícios e é ainda utilizada na produção do tabaco, de papéis especiais, na indústria têxtil, dentre muitos outros usos. A indústria do sabão retira a glicerina ao final da reação para destiná-la a esses outros usos, fazendo assim com que os sabões possuam maior validade. Ou seja, a presença da glicerina torna o sabão mais perecível.

A produção de sabão de glicerina utiliza esse mesmo subproduto para fabricar um tipo diferente de sabão, que em tese é menos agressivo à pele e mais hipoalergênico. Isso porque a glicerina é um produto extremamente seguro para o consumo humano.

Entretanto, ela por si só não é um agente de limpeza e assim, acrescentam-se aos glicerinados os detergentes sintéticos. Além disso, por ser mais suscetível à degradação a base glicerinada requer maior uso de conservantes. Isso sem falar, é claro, nos aromatizantes, corantes, espessantes etc. Ou seja, acaba não sendo nada agradável para pele do mesmo jeito.

Na saboaria natural a glicerina gerada na saponificação não é retirada, portanto os sabões produzidos são naturalmente ricos em glicerina. O que é bastante benéfico para pele, já que, por um lado o sabão retira parte da camada de gordura da superfície da pele e, por outro lado, a glicerina protege essa pele, evitando a perda de água superficial. Assim, o sabão fica menos agressivo e mais emoliente como deve ser.

As bases glicerinadas são muito utilizadas na saboaria natural focada em decoração. Como diz o mestre saboeiro Roberto Akira, esse nicho pode ser melhor definido como ‘artesanato em sabão’.

Por outro lado, atualmente já é possível encontrar fornecedores de bases industrializadas que estão adaptando suas fórmulas para atender ao artesão natural. De modo que, já conseguimos encontrar opções muito menos agressivas, sem lauril sulfato de sódio e sem gordura animal, por exemplo. Porém, de fato ainda não existem opções livres de conservantes. E, a composição dessas bases são basicamente feitas com óleos láuricos e palmíticos, ou seja, com óleo de babaçu/coco/palmiste e/ou palma, ou mesmo com os ácidos graxos já isolados que predominam nesses óleos: ácido láurico, mirístico, palmítico, esteárico.

Isso quer dizer, que ainda que seja possível explorar a visão herbalista na saboaria artesanal feita a partir de bases glicerinadas de maior qualidade, óleos essenciais e outros produtos naturais, a saboaria feita do zero, a partir da saponificação, permite um mergulho muito mais profundo na compreensão dos ingredientes naturais, como eles se tranformam e se expressam transformados em sabão. E sobre a origem e os processos produtivos envolvidos no manuseio de insumos brutos e, ainda, da vastidão e complexidade terapêutica que carregam.

Saponificar é sobre aquela vibração especial da transmutação das coisas! da matéria, dos elementos, da energia e, sobretudo, de nós mesmas!!


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