Quem inventou o sabão?

(tempo de leitura: 9 min.)

A evidência mais antiga encontrada até hoje data de quase 5 mil anos atrás (2800 a.C.) e consagra os antigos babilônios, povo que vivia no centro-sul da Mesopotâmia (onde atualmente se encontra o Iraque), como os mais antigos saboeiros!

Tal constatação provém de uma tábua de argila que descreve o processo pelo qual gorduras combinadas com cinzas de madeira e água podem criar uma substância capaz de limpar. É a primeira receita de sabão de que se tem conhecimento. O uso, no entanto, era para limpeza da lã usada na tecelagem.

Sabemos também que os antigos egípcios já faziam um uso para higiene e tratos medicinais da pele há pelo menos 3500 anos, conforme aponta o famoso Papiro de Ebers, datado de 1500 a.C..

Fenícios, gregos, romanos, celtas, árabes, mouros, e iorubás também cultivaram esse hábito, provavelmente aprendido pelo contato intenso entre esses povos que, habitando uma mesma macrorregião, de extrema importância comercial, não faziam apenas guerras e sim intercâmbio cultural e de mercadorias.

A região do Oriente Médio mediterrâneo teve enorme importância no desenvolvimento das tradições saboeiras ancestrais. Pelo menos desde o ano de 700 d.C. povos habitantes da região da Síria já produziam o primeiro sabonete 100% vegetal, o famoso sabão de Aleppo, feito com óleo de oliva e óleo de louro. Mais do que isso, foi o primeiro sabão sólido, duro, cortado em barras. Isso só foi possível devido ao uso das cinzas de plantas halófitas (que toleram salinidade por estarem adaptadas a viverem próximas ao mar) da região mediterrânea, também chamadas de barrilha, ricas em carbonato de sódio, em comparação as cinzas de outras plantas que possuem majoritariamente carbonato de potássio em sua composição e originam sabões líquidos ou pastosos.

Imagens da produção tradicional do sabão de Aleppo na Síria (Fonte: Wikipédia).

Cabe ressaltar que até o ano de 1791, quando Nicholas Leblanc inventou o método de produção de carbonato de sódio a partir do cloreto de sódio, somente se produziam sabões em barra na região da costa mediterrânea da Europa e Oriente Médio, que tinha acesso ao carbonato de sódio das plantas halófitas. Em todo o resto do mundo, sabões sólidos eram endurecidos com sal e o mais comum eram os pastosos.

Aleppo foi o primeiro centro saboeiro e sua técnica provavelmente se espalhou por toda a região mediterrânea, influenciando a criação de diversos outros centros de produção e tradições saboeiras de receitas únicas. Sabe-se que já nas primeiras cruzadas (1100 d.C.) da guerra promovida pelo cristianismo europeu na Terra Santa (Jerusalém), os europeus tiveram os primeiros contatos com o sabão de Aleppo, que logo ficou famoso entre os cruzados e na Europa. Infelizmente, as guerras passadas e atuais na região vem colocando em risco de extinção essas saboarias ancestrais.

Os sabões de oliva, isso é, feitos com 100% ou grande porcentagem de azeite de oliva, dominaram por séculos as saboarias do oriente médio e região mediterrânea. O uso do azeite por povos da mesopotâmia remota há mais de 6 mil anos! As oliveiras já eram bastante cultivadas e o azeite provavelmente um produto abundante quando surgiram os primeiros sabões.

Como exemplo, o sabão de Nabulsi (Nablus soap), 100% oliva, produzido desde o século 10 na cidade de Nablus na região da Cisjordânia, na Palestina foi um dos principais centros saboeiros derivados de Aleppo. Inicialmente, o sabão era feito de modo caseiro por mulheres, acabou dando origem a uma importante indústria saboeira da região, que embora tenha declinado no início do séc. 20, sobrevive até hoje.

Os mouros, mulçumanos do norte da África, foram responsáveis por levar o conhecimento saboeiro para a Europa, através dos povos da península ibérica que estiveram durante vários séculos da idade média sob seu domínio. Daí surgiu o sabão de Castela (Castile soap, Jabón de Castilla) e alguns centros de produção no sul da Espanha, particularmente na cidade de mesmo nome, Castela. Outro sabão 100% oliva, cuja produção data do século 14.

Foto com exemplares de sabonetes 100% oliva (sabão de castela).
Sabonete 100% oliva – sabão de castela (Foto por Tabitha Mort em Pexels.com)

Um pouco mais tarde (próximo do ano de 1370), em Marselha no sul da França, surge o sabão de Marselha (Marseille soap, Savon de Marseille). Originalmente um sabão 100% oliva, e partir de 1688, por decreto do Rei Luis XIV, um mínimo de 72% de óleo de oliva deveria conter em todo sabão denominado ‘savon de Marseille’, combinado com óleo de coco e palma, além de ter que seguir o processo tradicional de fabricação.

Foto apresentando o clássico sabão de Marselha, 72% oliva,  em seu tradicional formato em cubos de 600g.
Clássico sabão de Marselha, 72% oliva, em seu tradicional formato em cubos de 600g.

Comunidades do povo iorubá na Nigéria, Benin e Togo deram origem a um tipo de sabão conhecido por diversos nomes locais, como Ose Dudu, Sabulun Salo, Ncha Nkota ou genericamente de ‘African Black Soap’ – sabão preto africano. A receita se espalhou pelo oeste da África dando origem a mais de 100 variações e diferentes modos de produção, séculos antes da colonização africana pelos europeus.

A base dos ingredientes, entretanto, se mantém mais ou menos a mesma e é a própria característica do sabão. Cinzas de plantas nativas locais como cascas de banana, folhas de palmeira, frutos de cacau e casca de árvore de karité, do sandalo africano e outras árvores, são primeiro secas ao sol e depois queimadas para produzir as cinzas que fornecem o álcali necessário para saponificar os óleos e gorduras. Junta-se então água e vários óleos e gorduras, como óleo de coco, óleo de palma e manteiga de karité. E tem-se um sabão sólido de coloração preta.

Sabão tradicional do oeste da África, originário do povo iorubá da Nigéria, Benin e Togo e posteriormente de Gana. Conhecidos genéricamente como ‘African Black Soap’


Do ponto de vista científico da fabricação de sabões, a partir do método Leblanc, diversos estudos e o desenvolvimento tecnológico contribuíram para a formação das indústrias saboeiras, as quais tiveram amplo progresso no século 19. E podemos dizer que o método moderno de produção só começou a ser possível a partir de 1890, com a invenção do processo cloro-álcali de produção de soda (hidróxido de sódio) por eletrólise.  

A revolução industrial levou a produção sabão para as fábricas e então aos poucos ele deixou de ser produzido de modo caseiro. Mas foi a partir de 1950, com o início de uma ampla produção de tensoativos sintéticos e o fortalecimento da indústria química e as embalagens plásticas, ambas derivadas do petróleo, que o sabão deixa de ser simplesmente sabão, e a higiene e a limpeza doméstica passam a ganhar novos significados, novos produtos, novas funções e muita propaganda.

Hoje, o movimento é de resgate dos antigos saberes e práticas!

Especialmente um movimento de mulheres. Estamos reaprendendo a arte e o ofício da saboaria como parte de uma busca maior. Uma ruptura com paradigmas dominantes. Cultivar valores mais alinhados ao viver natural, com mais sustentabilidade e menor impacto socioambiental; minimalismo e combate ao consumismo e desperdício; fazer manual e autonomia em autocuidado; herbalismo autônomo.


Saboaria Natural e Ancestral?

Não, sabão não é natural. Não ocorre espontaneamente na natureza.

Pode até ocorrer acidentalmente, mas em essência é produzido pela ação e/ou intensão de pessoas humanas, há pelo menos alguns milhares de anos. De modo que, já é próprio da nossa cultura e é o principal elemento ligado à limpeza e higiene em todas as sociedades da atualidade. Sendo ainda base de inúmeros produtos que utilizamos cotidianamente.

O sabão artesanal natural feito do zero (sem o uso de bases prontas) é fabricado pela reação química de saponificação, que de modo simplificado pode ser entendida como:

   Óleo/Gordura + Base alcalina = Sabão + Glicerina

Trata-se da hidrólise de lipídios, no caso, lipídeos denominados triglicerídeos (óleos ou gorduras, quimicamente definidos como ésteres de ácidos graxos), que reagem com a base forte (soda caustica, ou a potassa) hidrolisada (em meio aquoso). A reação irá então resultar em um álcool (glicerina) e um sal de ácido graxo, o sabão em si, que carrega as propriedades dos ácidos graxos originais dos óleos/gorduras.

E é por isso que um sabão de coco natural é feito com apenas 3 ingredientes: óleo de coco, água e soda.

Pode parecer muita química complexa, e de certa forma é, mas a prática é simples. Requer alguns conhecimentos sobre os insumos e os processos, mas definitivamente não precisa ser químico para saber fazer um bom sabão, bem balanceado e com as propriedades específicas desejadas. A longa história da saboaria está por aí há alguns milênios para nos provar isso! 

Como disse um sábio estudioso chileno, “cultura é artificial, mas fazer cultura é natural ao ser humano” (Humberto Maturana). Assim, fazer sabão é tão antigo e presente na nossa vida que é algo natural à vida humana. Ou pelo menos deveria ser.


Acontece que muito recentemente na longa história do sabão, a saboaria, como a arte e ofício de se fazer sabão/sabonete, foi apropriada pela indústria químico-farmacêutica de modo a mercantilizar essa prática milenar. Não que o sabão não fosse comercializado até então. De fato, há séculos já se produzia e comercializava sabão em larga escala.

Porém, a indústria moderna – especialmente no pós segunda guerra mundial e o advento dos detergentes sintéticos derivados do petróleo – tem descaracterizado a composição básica (e simples) do sabão tradicional. De modo que, mais e mais ingredientes artificiais são incluídos, no intuito principal de baratear o custo de produção desses produtos, maximizando os lucros econômicos. 

A grosso modo, o que tem nos sabões industriais convencionais, portanto, é uma mistura que envolve:

  • um ou mais tensoativos (agente de limpeza, ou surfactante), principalmente sintéticos, geralmente o lauril sulfato de sódio (o mesmo do detergente de louça);
  • ingredientes que proporcionam emoliência, geralmente óleo mineral ou sebo animal (a famosa lanolina que é o sebo de carneiro);
  • fragrâncias sintéticas derivadas do petróleo (os tais cheiros fedidos que geralmente são também muito fortes no intuito de disfarçar os cheiros ruins dos produtos químicos);
  • e, por fim, os conservantes, corantes, estabilizantes e mais conservantes.

Assim, hoje denominamos sabão natural aqueles produzidos pela reação de saponificação, tal qual o processo tradicional de se fazer sabão. Além do resgate da prática ancestral e da valorização dessa sabedoria milenar, a saboaria natural prima pela produção livre de detergentes sintéticos, conservantes, químicos tóxicos, derivados de petróleo etc.

Utilizando apenas os insumos básicos necessários para que a saponificação ocorra: óleos/gorduras e a soda (NaOH), ou a potassa (KOH) no caso dos sabões líquidos e cremosos; além de um universo mágico de inúmeros aditivos naturais tradicionalmente utilizados para fornecer aroma, cores, esfoliação, hidratação extra ou propriedades terapêuticas.


Referências:

– Melo, R. e Sousa Filho, F. Fabricação de sabões e artigos de toucador. São Paulo: Editora LEP S.A., 1956.

– Sugai, R. A.. Curso de Saboaria Artesanal Fundamental, Módulo 02 – História do sabão, 2018.     

www.nytimes.com/wirecutter/blog/history-of-soap/

www.soaphistory.net

www.soapmakingmagazine.co.uk


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